Rejeição inicial: a novela de Antonio Fagundes que repete desafio de “Quem Ama Cuida” 35 anos depois
A aguardada volta de Antonio Fagundes à Globo, com a novela das nove “Quem Ama Cuida”, tem sido marcada por um início de audiência modesto, reacendendo um debate sobre a recepção do público a tramas complexas e personagens controversos. Curiosamente, essa não é a primeira vez que o renomado ator, um dos pilares da dramaturgia brasileira, se vê em uma situação de desafio semelhante. Há exatos 35 anos, “O Dono do Mundo”, outra obra estrelada por Fagundes, enfrentou uma considerável rejeição do público em seus primeiros capítulos, demorando a conquistar os telespectadores.
A coincidência histórica entre as duas produções, separadas por décadas, oferece uma rica oportunidade para analisar as dinâmicas da televisão e a relação do público com as narrativas que chegam às telas. Enquanto “Quem Ama Cuida” busca seu espaço na programação atual, a memória de “O Dono do Mundo” nos lembra que nem sempre o sucesso é imediato, e que a trajetória de uma novela pode ser tão imprevisível quanto a vida real.
O desafio de “Quem Ama Cuida” e a volta de Fagundes
Lançada recentemente, “Quem Ama Cuida” trouxe Antonio Fagundes de volta à emissora em um papel de destaque, o de Arthur Brandão. A expectativa em torno de seu retorno era alta, considerando a vasta e bem-sucedida carreira do ator. No entanto, os primeiros dias da trama registraram índices de audiência que ficaram abaixo do esperado para o horário nobre, gerando discussões sobre os rumos da novela e a preferência do público contemporâneo.
Em um cenário de fragmentação da audiência e de novas formas de consumo de conteúdo, a tarefa de cativar o telespectador tornou-se ainda mais complexa. A Globo, mesmo mantendo sua liderança, enfrenta o desafio de inovar e manter o interesse em suas produções, especialmente nas novelas das nove, que tradicionalmente ditam o ritmo da teledramaturgia nacional.
“O Dono do Mundo”: a rejeição inicial e o enredo polêmico
A situação atual de “Quem Ama Cuida” remete diretamente a “O Dono do Mundo”, exibida em 1991. Naquela época, a novela de Gilberto Braga (1945-2021) causou grande polêmica e uma forte rejeição inicial devido ao seu enredo ousado e moralmente ambíguo. Antonio Fagundes interpretava Felipe Barreto, um cirurgião plástico rico e charmoso que, por uma aposta, seduzia e tirava a virgindade de Márcia (Malu Mader) na noite de núpcias dela, antes mesmo de seu noivo, Walter (Tadeu Aguiar).
A trama central, que deveria focar na vingança de Márcia contra Felipe, tomou um rumo inesperado. O público, para a surpresa do autor, “torceu o nariz” para a mocinha, vista como “fácil”, e se encantou pelo vilão, percebido como um mero conquistador. Essa inversão de valores, onde a vítima era julgada e o algoz idealizado, comprometeu o desenvolvimento original da história e exigiu ajustes significativos na narrativa para tentar reconectar a novela com sua audiência.
A virada da trama e a concorrência acirrada da época
Para tentar reverter a rejeição e seguir com a sinopse, Gilberto Braga intensificou o sofrimento de Márcia, submetendo-a a humilhações e situações extremas, como a cena em que ela fere o rosto de Felipe com um bisturi após perder o bebê. A virada na audiência só começou a ser esboçada com a entrada de outra heroína em cena: Stella (Gloria Pires), a esposa traída de Felipe. Sua ascensão como inimiga do cirurgião plástico marcou o início da derrocada do vilão e trouxe um novo fôlego à trama.
Contudo, “O Dono do Mundo” não conseguiu recuperar totalmente o terreno perdido. A concorrência da época era acirrada, com o SBT apostando em sucessos da Televisa, como “Carrossel” (1989) e “Rosa Selvagem” (1987), que haviam se tornado coqueluches no Brasil e atraído uma parcela significativa do público. A novela de Gilberto Braga, apesar de ter driblado a rejeição inicial, não alcançou o patamar de audiência esperado para o horário nobre da Globo.
No desfecho, em uma espécie de “vingança” do autor contra o público que havia se afeiçoado ao vilão, Felipe Barreto surpreendeu ao levar Márcia para a cama novamente, mesmo após ter se mostrado arrependido, e admitir que continuava o “escroque de sempre”. Uma forma de Braga reafirmar a verdadeira natureza de seu personagem e desafiar a percepção do telespectador.
Lições do passado e o futuro de “Quem Ama Cuida”
A experiência de “O Dono do Mundo” oferece um valioso panorama para a análise do atual desempenho de “Quem Ama Cuida”. Embora ambas as novelas tenham enfrentado um começo desafiador, o contexto atual é diferente. A protagonista de “Quem Ama Cuida”, Adriana (Leticia Colin), é descrita como uma personagem “corretíssima”, que não se rende a seduções ou planos maléficos, o que pode facilitar a identificação do público e evitar a rejeição moral enfrentada por Márcia.
Além disso, a concorrência na TV aberta hoje é significativamente menor do que nos anos 90. Mesmo em um período de crise e transformações no setor, a Globo mantém uma distância considerável das outras emissoras, o que pode dar a “Quem Ama Cuida” mais tempo e espaço para conquistar sua audiência. Para os interessados em revisitar a história que marcou época, “O Dono do Mundo” está disponível na íntegra para assinantes do Globoplay, uma plataforma que permite resgatar grandes clássicos da dramaturgia brasileira.
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