Humor de Tatá Werneck sobre ‘lacração’ no Multishow provoca reações diversas e acende discussões
O humorístico E.T. – Edu e Tatá, que estreou no último dia 19 no Multishow, rapidamente se tornou um dos assuntos mais comentados nas redes sociais, gerando uma repercussão controversa. Um esquete específico, que satiriza a chamada “lacração” excessiva performada em plataformas digitais através da personagem Lacrassandra, de Tatá Werneck, dividiu o público e acendeu um debate sobre os limites e a interpretação do humor na sociedade contemporânea.
A piada, que aborda um fenômeno cultural cada vez mais presente, foi recebida de maneiras distintas: uma parcela do público a adorou, outra a considerou de mau gosto, e um terceiro grupo se identificou com a situação, sentindo-se “vítima” do comportamento satirizado. Nomes conhecidos, como o ator Juliano Cazarré e o comediante Leo Lins, manifestaram-se publicamente, reforçando a polarização em torno do tema.
A “lacração” em foco: o que o esquete de Tatá Werneck satiriza
O programa E.T. – Edu e Tatá, apresentado por Eduardo Sterblitch e Tatá Werneck, propõe uma série de esquetes de humor que buscam satirizar diversas situações do cotidiano, relacionamentos, programas de televisão, propagandas, comportamentos e tendências sociais. O esquete em questão se desenrola em um restaurante, onde um encontro aparentemente romântico é constantemente interrompido por uma série de “lacradas” da personagem feminina a cada tentativa de fala do homem.
O termo “lacração” popularizou-se na internet para descrever um discurso onde alguém tenta corrigir ou demonstrar superioridade moral ou intelectual sobre a opinião alheia, muitas vezes de forma didática ou impositiva. Ao longo dos últimos anos, pautas progressistas e de militância social foram, em alguns contextos, empregadas de maneira considerada sem tato ou desproporcional, o que o humor do esquete de Tatá Werneck busca explorar. Para entender mais sobre o conceito, clique aqui.
A personagem Lacrassandra, interpretada por Tatá Werneck, é uma militante feminista que leva o conceito ao extremo. Ela evoca situações reais que já ganharam destaque, como o episódio de 2018 em que a atriz Kéfera Buchmann acusou um homem na plateia do programa Encontro com Fátima Bernardes de praticar mansplaining (quando um homem tenta explicar algo a uma mulher de forma condescendente) e maintainterrupting (quando um homem interrompe uma mulher repetidamente). Lacrassandra também utiliza jargões que se tornaram clichês desse tipo de discurso, como “corpos livres” e “somos as bruxas que não conseguiram queimar”, reforçando a caricatura.
O cerne do humor reside na observação de comportamentos exagerados nas redes sociais e na transferência dessa militância desmedida para uma situação cotidiana, onde, na narrativa do esquete, nada de grave ou ofensivo estava de fato acontecendo. A comédia, nesse sentido, atua como um espelho que distorce para evidenciar.
Recepção dividida: do amor aos elogios, passando pela crítica
A piada de Tatá Werneck foi interpretada de diversas formas, gerando um amplo engajamento. Nas redes sociais, especialmente no Instagram do Multishow, o esquete acumulou milhares de comentários. A atriz Deborah Bloch declarou seu amor por Tatá, enquanto Bela Gil brincou com a “franja vegana” da personagem, demonstrando a aprovação de muitos.
Além das risadas e elogios, houve quem se dedicou a contextualizar a intenção da piada. O ator Rafael Mazzi, por exemplo, defendeu que “existem pessoas extremistas em qualquer grupo, e a comédia também precisa brincar com esses exageros fora do padrão”. Já a fã Tatiana Lopes interpretou o vídeo como uma “crítica ao feminismo branco e neoliberal, puro suco da performance, e que, em algumas situações, chega a dar até munição ao patriarcado”, sugerindo uma leitura mais aprofundada da sátira.
Contudo, o esquete também atraiu críticas significativas. Alguns internautas consideraram a piada de mau gosto, argumentando que ridicularizar o feminismo em um contexto de alta incidência de misoginia e feminicídio seria um “desserviço para o humor”, como expressou Fabio Morais no TikTok. A internauta Gizelle Carvallho, na mesma plataforma, lamentou a postura da humorista, afirmando que sentiu “vergonha por não ter sido representada pelos peitos de uma mãe debochando da dor das mulheres”, evidenciando a percepção de que o humor, neste caso, teria atingido de forma negativa a causa feminista.
A perspectiva conservadora e o “sentimento de vítima”
Em contrapartida, o esquete ressoou fortemente com o setor mais conservador da sociedade, que se sentiu “visto” na “dor” do personagem masculino silenciado pela “lacração”. O ator Juliano Cazarré, conhecido por suas posições mais tradicionais e por ter lançado um curso focado em “resgatar a masculinidade tradicional”, comparou a cena de humor à sua participação no programa GloboNews Debate. Na ocasião, ele debateu masculinidade com a psicanalista Vera Iaconelli e o consultor Ismael dos Anjos, e brincou: “Quem colocou no Multishow esse trecho da minha entrevista na GloboNews?”. É importante ressaltar que Vera Iaconelli, na realidade, não se comportou de forma semelhante à personagem de Tatá.
O comediante Leo Lins, que já esteve no centro de polêmicas por seu humor, também elogiou o esquete. Ele sugeriu que a Globo, que antes “lucrou promovendo pautas caricatas como essa”, estaria agora “malandramente” mudando de lado para “lucrar rindo de pautas que até anos atrás éramos os maiores divulgadores”. Apesar da crítica à emissora, Lins reconheceu o talento dos humoristas, afirmando que “os dois são excelentes humoristas, e o esquete ficou ótimo”.
A polarização se manifestou em comentários como o de Zeca Luz, que afirmou: “Está assim mesmo. As feministas estão destruindo as mulheres”. A esse comentário, Tatá Werneck fez questão de responder diretamente, afirmando: “Eu sou feminista, amor. Obviamente”, deixando clara sua posição e a intenção de seu humor como crítica a um exagero, e não ao movimento em si. O Notícias da TV tentou contato com a humorista para um pronunciamento, mas não obteve resposta até o momento da publicação desta matéria.
A discussão gerada pelo esquete de Tatá Werneck no Multishow é um reflexo da complexidade do humor em lidar com temas sociais sensíveis. Ao satirizar a “lacração”, a comediante não apenas provocou risadas, mas também estimulou um debate multifacetado sobre feminismo, militância, liberdade de expressão e a forma como as pautas sociais são percebidas e discutidas na esfera pública. O episódio reforça como a arte, mesmo na comédia, pode ser um poderoso catalisador para a reflexão e a divergência de ideias.
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