Antes de morrer, Gilberto Braga amargou mágoa da Globo por último desejo não atendido
A teledramaturgia brasileira perdeu um de seus maiores mestres em 2021, com a partida de Gilberto Braga. O renomado autor, responsável por clássicos que marcaram gerações, como Vale Tudo e Dancin’ Days, faleceu aos 75 anos, vítima de uma infecção sistêmica. No entanto, seus últimos anos foram permeados por uma profunda mágoa com a TV Globo, emissora onde construiu grande parte de sua carreira. Apesar de um legado incontestável, Braga partiu com o desejo de um último grande sucesso não atendido, um anseio que a direção do canal, por diferentes razões, não realizou.
Os bastidores da televisão, muitas vezes, revelam que o prestígio e o sucesso do passado nem sempre blindam os criadores contra as pressões do mercado e as frustrações profissionais. A dinâmica interna das grandes emissoras, como a Globo, opera sob a lógica constante de resultados imediatos, o que pode gerar conflitos e rupturas até mesmo com profissionais históricos. Foi essa realidade que marcou os anos finais de Gilberto Braga, um dos pilares da teledramaturgia nacional.
O peso do último trabalho e a busca por redenção de Braga
A década final da vida de Gilberto Braga foi intensamente marcada pela necessidade pessoal e profissional de reverter o resultado de sua última produção exibida no horário nobre. Após emplacar sucessos estrondosos como Paraíso Tropical (2007) e Insensato Coração (2011), o autor assinou Babilônia em 2015, em parceria com Ricardo Linhares e João Ximenes Braga.
Contudo, a trama enfrentou severas dificuldades de aceitação do público e se tornou um dos maiores fracassos de audiência do horário das nove da emissora. Relatos de parceiros profissionais, como o próprio João Ximenes Braga, indicam que Gilberto ficou profundamente deprimido com o resultado da novela.
Mesmo com a saúde já debilitada pelas consequências de um Acidente Vascular Cerebral (AVC), ele considerava uma questão de honra escrever um novo sucesso para não encerrar sua carreira com uma derrota de público. Em reuniões mantidas em sua residência, o novelista expressava lucidez e o desejo imediato de voltar a trabalhar para resgatar o prestígio junto ao público e à crítica especializada.
Projetos engavetados: os últimos textos de Gilberto Braga
Na tentativa de retornar à grade de programação da Globo e concretizar seu desejo de redenção, Gilberto Braga desenvolveu e entregou três projetos do que seriam seus últimos textos inéditos. Infelizmente, nenhum deles conseguiu avançar na linha de produção da emissora, aumentando a frustração do autor.
Um dos projetos roteirizados por Braga era uma produção focada na vida da cantora Elis Regina. No entanto, a Globo optou por cancelar a iniciativa, alegando que o filme biográfico dirigido por Hugo Prata já havia sido lançado no mercado cinematográfico, o que inviabilizaria uma nova abordagem televisiva no mesmo período.
Outra tentativa foi a reescrita da estrutura de sua própria novela de 1981, Brilhante, que havia sofrido com a censura e a rejeição na época original. Sob o título provisório de “Intolerância”, o projeto foi inteiramente planejado para a faixa das onze horas, mas acabou completamente engavetado pela emissora, sem perspectivas de produção.
Por fim, baseada na obra literária Vanity Fair (1847), de William Makepeace Thackeray, a novela Feira das Vaidades chegou a ser aprovada e integrada à fila do horário das seis antes da pandemia de Covid-19. No entanto, apesar do planejamento inicial e da expectativa do autor, a produção foi descartada pela emissora pouco antes do falecimento de Gilberto Braga, selando o destino de seu último grande desejo profissional.
O legado de um mestre que transcendeu frustrações
Apesar dos conflitos contratuais e criativos em seus anos finais, a contribuição de Gilberto Braga para a cultura nacional permanece como um dos pilares da televisão brasileira. O autor assinou obras de grande impacto popular e político na sociedade, incluindo títulos como Dancin’ Days (1978), Água Viva (1980), Corpo a Corpo (1984), além de enfrentar desafios em produções como O Dono do Mundo (1991) e Pátria Minha (1994).
Ao lado de Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, Braga foi o responsável pela criação de Vale Tudo (1988), obra considerada o maior marco do realismo televisivo nacional. A relevância de Vale Tudo é tamanha que seu formato segue no centro das atenções do mercado, com a recente notícia de um remake oficial a ser produzido por Manuela Dias, reafirmando a atemporalidade e a genialidade do trabalho de Gilberto Braga.
A história de Gilberto Braga nos lembra que, mesmo para os grandes nomes, o caminho profissional pode ser repleto de desafios e desilusões. Contudo, seu legado artístico é imortal, continuando a influenciar e encantar novas gerações. Para ficar por dentro de outras histórias emocionantes e contextualizadas do mundo dos famosos e da televisão, continue acompanhando o Giro da Fofoca. Nosso compromisso é trazer informação relevante e de qualidade, sempre com a profundidade que você merece.



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