Gabriela Biló: a fotojornalista que superou medo e crise alérgica para registrar o 8 de janeiro
A invasão e depredação das sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 marcou um dos episódios mais tensos da história democrática recente do Brasil. No epicentro desse caos, jornalistas e fotojornalistas desempenharam um papel crucial na documentação dos eventos, muitas vezes em condições de extrema adversidade. Entre eles, a fotojornalista Gabriela Biló, conhecida por seu trabalho incisivo, enfrentou não apenas a ameaça iminente de violência, mas também uma inesperada crise alérgica para cumprir sua missão.
A experiência de Biló, que se tornou um testemunho vívido dos desafios enfrentados pela imprensa naquele dia, foi detalhada em entrevista a Tati Bernardi, no programa “Desculpa Alguma Coisa”, do Canal UOL. Sua narrativa oferece um olhar íntimo sobre a coragem e a resiliência necessárias para registrar a história em tempo real, sob pressão e risco pessoal.
Os Desafios Inesperados de uma Cobertura Histórica
No fatídico 8 de janeiro, Gabriela Biló estava de folga em Brasília e sob o efeito de fortes antialérgicos, resultado de uma reação severa a uma tintura de cabelo. Com o corpo debilitado e a mente um tanto turva, ela demorou a processar a gravidade das cenas que começavam a ser transmitidas pela televisão. A princípio, a fotojornalista relata ter pensado que se tratava de uma reprise, tamanha a incredulidade diante do que via.
Aos poucos, a realidade se impôs. “Eu achei que eu tava vendo reprise de alguma coisa, eu demorei pra entender. Aí eu comecei a tomar café, jogar água na minha cara e entender que esse é o nosso Capitólio, a gente tá sofrendo uma tentativa de golpe”, contou Biló. A percepção da tentativa de golpe de Estado a impulsionou a agir. Mesmo com a saúde fragilizada, a urgência jornalística falou mais alto: ela pegou sua câmera e correu para a Esplanada dos Ministérios, o epicentro dos ataques.
O Clima de Hostilidade e a Busca por Segurança
A hostilidade enfrentada por Gabriela Biló no 8 de janeiro não era um fenômeno isolado. Dias antes, a fotojornalista já havia sentido a tensão ao tentar cobrir uma tentativa de reintegração de posse em acampamentos golpistas. Naquela ocasião, ela foi abordada de forma agressiva e expulsa do local, o que a levou a tomar uma decisão drástica para sua segurança.
“Eu estava com o cabelo rosa na época. Foi meio hostil, meio que: quem é você? Eu pensei: se eles acharem minhas câmeras, eu vou apanhar”, relembrou. O medo de ser identificada e agredida a fez mudar o visual, pintando o cabelo de preto. Foi essa mudança, ironicamente, que desencadeou a crise alérgica que a acompanharia no dia da invasão, com bolhas no couro cabeludo e a necessidade de medicação intensa. Este episódio prévio demonstra o ambiente de intimidação que precedeu os eventos de janeiro e a vulnerabilidade dos profissionais de imprensa.
A Estratégia da Cautela e a Proteção do Registro
Chegando à Esplanada no dia 8, ainda sob os efeitos dos antialérgicos e com a memória da experiência anterior fresca, Biló adotou uma estratégia de extrema cautela. A prioridade era sua integridade física, o que a levou a fotografar menos do que gostaria e a evitar se aproximar demais da ação. Essa decisão, embora limitasse o volume de seu trabalho, era essencial para não levantar suspeitas em um ambiente onde jornalistas eram alvos.
“Eu fui perguntada várias vezes quem eu era, o que eu tava fazendo lá, o que eu tava fotografando. Eu não procurei muito ângulo, não ficava fotografando tudo o que vi. Fotografei pouco, porque senti que, se eu fosse muito em cima da ação, ia ser suspeito, e ali a minha integridade física era o mais importante”, explicou. A pressão para apagar registros era constante. Para proteger seu material, Biló trocou o cartão de memória de sua câmera em um momento crítico, uma tática comum entre fotojornalistas para salvaguardar evidências. A preocupação era real: mensagens de colegas chegavam, relatando agressões, roubos de equipamentos e cartões de memória.
O Legado do Fotojornalismo em Momentos Críticos
Após conseguir enviar uma imagem que considerava essencial para o registro histórico, Gabriela Biló decidiu que não era mais seguro permanecer no local. A sensação de perigo iminente era palpável. “Foi depois dessa última foto que eu percebi que tava muito mais perigoso do que eu pensei que tivesse”, afirmou. Sua saída, facilitada por um táxi que, por sorte, passava na rua – algo incomum em Brasília –, marcou o fim de uma cobertura extenuante e perigosa.
A experiência de Biló é um lembrete contundente da importância do fotojornalismo em momentos de crise. As imagens capturadas por ela e por outros profissionais naquele dia não apenas informaram o público sobre os eventos em tempo real, mas também se tornaram peças fundamentais para a memória histórica e para as investigações subsequentes. A liberdade de imprensa e a segurança dos jornalistas são pilares de qualquer democracia, e os desafios enfrentados por Biló ressaltam a necessidade de protegê-los, especialmente quando a verdade se torna um alvo. Para mais informações sobre o papel da imprensa em eventos críticos, acesse UOL Notícias.
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