Filmes de fé: Wagner de Assis critica rótulo e preconceito contra a franquia Nosso Lar

Filmes de fé: Wagner de Assis critica rótulo e preconceito contra a franquia Nosso Lar

O diretor Wagner de Assis, mente criativa por trás da aclamada franquia Nosso Lar, que já atraiu milhões de espectadores aos cinemas brasileiros, manifestou recentemente seu descontentamento com a categorização de suas obras como “filmes espíritas”. Inspiradas em livros psicografados por Chico Xavier (1910-2002) e outras figuras proeminentes do espiritismo, as produções têm sido frequentemente limitadas a esse nicho no mercado nacional. Para Assis, essa rotulagem estreita não passa de uma forma de preconceito que impede um alcance mais amplo e uma compreensão mais profunda de suas narrativas.

A discussão veio à tona durante o painel “A Fé Move Montanhas e Engaja Audiências”, realizado no evento Rio2C, um dos maiores encontros de criatividade da América Latina. O cineasta enfatizou que o espiritismo não pode ser confundido com um gênero cinematográfico. “Primeiro que o espiritismo não é gênero de cinema, não é gênero narrativo. O espiritismo é uma coisa, o cinema é outra coisa”, declarou, sublinhando a distinção entre crença e arte.

A Universalidade por Trás dos Filmes de Fé

Para Wagner de Assis, a espiritualidade, em um contexto geral, é um elemento enriquecedor para o gênero dramático, e não uma limitação. Ele se colocou à disposição para explorar esses temas, vendo-os como um caminho para conectar o público a partir de questões universais. A prova de que suas obras transcendem o público espírita está nos números impressionantes de bilheteria.

O primeiro longa da franquia, Nosso Lar (2010), levou mais de 4 milhões de pessoas aos cinemas. Mais recentemente, Nosso Lar 2: Os Mensageiros (2024), também obteve grande sucesso, alcançando a marca de 1 milhão de espectadores em apenas 10 dias de exibição. Esses resultados, segundo Assis, demonstram que o interesse pelas histórias vai muito além dos seguidores do espiritismo ou estudiosos da obra de Chico Xavier.

“Todos os filmes que a gente fez e faz, a gente pensa que todas as pessoas de qualquer lugar do mundo podem ver esse filme. Se a resposta for ‘sim’, a gente encontrou o caminho”, explicou o diretor. Ele acredita que a franquia está construindo um novo escopo de mercado, capaz de engajar uma audiência vasta e diversificada por meio de temas que ressoam com a experiência humana em um nível mais profundo, independentemente de suas convicções religiosas.

O Preconceito e a Questão da Religião no Set

No mesmo painel do Rio2C, onde dividiu o palco com Ygor Siqueira (produtor executivo e estrategista do cinema cristão) e Carolina Minardi (roteirista e consultora de longas-metragens de fé), Assis revelou sentir desconforto ao ser questionado sobre sua própria religião. Ele defende que a fé pessoal do realizador não deve interferir no processo criativo ou na recepção da obra.

“Isso não tem que impactar o set, ser agnóstico, ou qualquer tipo de religião… E acho inclusive que eu não deveria nem pensar o tipo de religião da pessoa que vai ver o filme, porque ela tem que assistir ao que ela quer”, afirmou. Para ele, a insistência em saber sua crença pessoal é uma forma de preconceito, sugerindo que apenas espíritas poderiam adaptar obras baseadas no espiritismo. “É horrível isso. Se eu perguntar para alguém qual é a religião dessa pessoa que quer trabalhar comigo, ela me processa”, comparou, evidenciando o caráter discriminatório da pergunta.

O diretor argumenta que, embora o mercado de filmes de fé esteja em ascensão no Brasil, o preconceito contra obras de inspiração religiosa ainda é uma barreira significativa. “A história de Jesus é uma história mitológica. Ou seja, o preconceito é o que impede as pessoas de irem ao cinema ver o filme”, refletiu. Ele vê a superação desse preconceito como uma “guerra importante” a ser travada, pois ela promove o entendimento mútuo e o respeito entre diferentes crenças.

Nosso Lar: Uma Franquia em Expansão e a Luta Contra Rótulos

A visão de Assis é clara: a arte deve ser para todos. Ele não concebe a ideia de que um filme deva ser assistido apenas por quem compartilha da mesma crença. “Óbvio que a gente faz o Nosso Lar para o espírita. Mas foram mais de 4 milhões [de espectadores]. A gente que está realizando precisa sempre dizer: arte é para todos. Eu particularmente gosto de pensar que estamos construindo histórias para todas as pessoas”, reiterou.

O futuro da franquia Nosso Lar parece promissor. O terceiro filme, Nosso Lar 3: Vida Eterna, já tem previsão de lançamento para o início de 2027. Wagner de Assis sinaliza que a jornada da história ainda é longa, brincando com a possibilidade de múltiplos filmes, comparando o potencial da saga à durabilidade da franquia Velozes e Furiosos. “O Nosso Lar é uma franquia já estabelecida, e vem aí o Nosso Lar 3, 4, 5, 6… sete não, né? Porque aí vira Velozes e Furiosos (risos). Mas enfim, a gente tem temas muito interessantes para transformar em histórias”, concluiu, reforçando seu compromisso em criar narrativas que, embora enraizadas em uma perspectiva espiritual, sejam acessíveis e relevantes para qualquer espectador. Para mais informações sobre o cinema nacional e suas produções, visite o site da Ancine.

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