Estudo inovador confirma exercício físico como aliado poderoso contra a recidiva do câncer de intestino

Imagem: Adobe Stock Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Não bastasse o estardalhaço quando foi publicado no ano passado, um estudo com 889 homens e mulheres que tinham sido operados para retirar um câncer de intestino e feito quimioterapia em seguida voltou a dar no que falar no início deste mês, durante o encontro anual da Asco (American Society of Clinical Oncology), em Chicago (EUA).

Realizado por cientistas de 55 centros oncológicos de seis países — Canadá, Estados Unidos, Inglaterra, Austrália, França e Israel —, o estudo CHALLENGE sorteou os participantes. Ou seja, em bom “cientificês”, randomizou. Metade caiu em um grupo que recebeu recomendações sobre vida saudável, incluindo atividade física na rotina. Já as pessoas do outro grupo não tiveram escapatória: precisaram calçar o par de tênis e, acompanhadas por fisiologistas do exercício, participaram de treinos montados sob medida para que cada uma delas alcançasse gradualmente o objetivo de 10 MET-horas por semana.

promoção by gilberto silva

MET é uma unidade e significa “equivalente metabólico de tarefa”. Nosso organismo gasta 1 MET de energia quando está sentado ou em repouso. O “horas por semanas” seria uma espécie de dose. Na prática, os tais 10 MET-horas por semana se traduzem na velha recomendação: praticar 150 minutos de atividade aeróbica semanalmente.

Os pacientes seguiram esse programa por três anos, mas foram acompanhados por um período bem maior. Veja o resultado do suor derramado: passados oito anos, na turma dos treinos com acompanhamento, 80,3% continuavam muito bem, sem recorrência do câncer de intestino, contra 73,9% dos que ficaram no outro grupo.

O oncologista Malek Hannouf, pesquisador da Universidade de Calgary, no Canadá, e um dos autores da pesquisa, voltou ao palco da Asco e reacendeu a história: “Se o exercício físico fosse incorporado às diretrizes canadenses para o tratamento dessa doença como prescrição formal, haveria uma redução de despesas de quase 24 mil dólares por paciente a cada ano”, informou ele, apresentando no evento deste ano os dados de custo-efetividade dessa medida.

Ao longo do congresso recente, diga-se, foram dezenas de trabalhos sobre atividade física e câncer. Por que será que o CHALLENGE continua chamando mais a atenção do que todos os outros? “Porque, com ele, é a primeira vez que se prova que fazer atividade física contribui diretamente para o desfecho dessa doença”, responde o oncologista André Paternò Castello, do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo.

O médico logo explica melhor o que quer dizer: “Os outros trabalhos reforçam o que a gente tem cada vez mais conhecimento, que o exercício é mesmo capaz de melhorar a tolerância ao tratamento, aliviando efeitos colaterais da quimioterapia, como a fadiga, por exemplo. Mas, nesse caso, o que se viu foi um impacto sobre o câncer propriamente dito”.

Os participantes que seguiram o protocolo de atividade física apresentaram um risco 28% menor de ter uma recidiva do tumor em relação aos que ficaram só com recomendações genéricas, livres para treinar se quisessem e o quanto quisessem. “É algo fenomenal. Os remédios que usamos não conseguem promover essa redução de quase 30% na ameaça de o câncer de intestino voltar”, entusiasma-se o doutor Paternò.

Olhando para o que existe de pesquisa científica concluída até o momento, o único trabalho com um número razoável de pacientes acompanhados por um bom tempo é esse sobre câncer de intestino. “Porém, no próprio encontro da Asco apareceram investigações envolvendo indivíduos com outros tumores. Só que ainda estão em fases iniciais”, observa o médico do Einstein.

Resta esperar que os participantes desses estudos sejam acompanhados por alguns anos para saber se o exercício afastaria a ameaça de recidiva em mais doenças malignas e, caso positivo, qual a porcentagem de diminuição do risco de isso acontecer em cada tipo de tumor, algo que pode variar um pouco.

A atividade física, bem entendido, não substitui os medicamentos. Aliás, no estudo CHALLENGE ninguém ficou sem receber o tratamento padrão após a cirurgia — nem o grupo dos treinos estruturados, nem a turma que só recebeu a dica de fazer exercício por conta própria.

“Mas, sem dúvida, a incorporação de atividade física ao tratamento se tornou um dos tópicos mais quentes na nossa área”, pensa André Paternò. “Estamos entendendo que nós, oncologistas, precisamos prescrever exercício, além de remédios.”

Repare que há uma sutileza nesse raciocínio, a mesma que surge no discurso de Malek Hannouf: ninguém mais está falando em uma simples recomendação para o paciente suar a camisa, como já consta nas diretrizes de sociedades de oncologia do mundo inteiro. A ideia é escrever “exercício físico” na receita, para ser levado tão a sério quanto engolir comprimidos ou realizar exames periódicos. Mas como os médicos deverão fazer isso?

A princípio, os oncologistas devem dar a prescrição clássica, ou seja, o equivalente a 150 minutos de exercício aeróbico de moderado a vigoroso associados a, pelo menos, dois treinos de fortalecimento muscular por semana. “É o suficiente para alguém que teve câncer de intestino alcançar os mesmos benefícios dos participantes do estudo”, garante André Paternò.

Porém, o conceito de exercício “de moderado a vigoroso” para você é diferente do que seria para mim e, talvez, mais diferente ainda do que seria para alguém que enfrentou um câncer.

“Para dar um exemplo diferente, não é raro nos tumores de próstata que os homens tenham apresentado metástases nos ossos, os quais ficam fragilizados”, conta o oncologista. “A maior parte das metástases não atrapalharia o início de um programa de exercício físico. Mas, quando elas afetam o esqueleto, eu tenho de checar a probabilidade de instabilidades e fraturas. Portanto, eu preciso da avaliação do ortopedista para prescrever exercício.”

Outro exemplo é o de pacientes que sofrem de anemia com o tratamento. O que parece um esforço “moderado” para uns será uma maratona para eles até se resolver essa questão. “Além disso, devo me certificar se a terapia contra o câncer não promoveu ou agravou algum problema cardíaco”, aponta o doutor Pasternò, mostrando que todo cuidado é pouco.

Por essas e por outras, o treino deve ser individualizado, acompanhado por fisioterapeutas ou profissionais de educação física com formação para examinar o esforço de quem, de certa maneira, acabou de sair de uma corrida, aquela pela vida.

Há vários mecanismos que diminuem o perigo do câncer voltar para quem se movimenta dentro de uma faixa de esforço de moderado a vigoroso. “O exercício modula o metabolismo como um todo”, resume o doutor Paternò. “Para começo de conversa, o indivíduo tende a não acumular tanta gordura.” A obesidade é fator de risco comprovado para diversos tumores e o elo com o de intestino, especificamente, está para lá de comprovado.

“O exercício também reduz a resistência à insulina”, conta Malek Hannouf, autor do CHALLENGE . “Se as células do corpo resistem à ação desse hormônio, o pâncreas aumenta sua secreção, em uma tentativa de compensar. Então, a insulina fica elevada na corrente sanguínea. O problema é que ela é um fator de crescimento, favorecendo a proliferação celular.”

Sim, a insulina em excesso faz isso sem a menor distinção entre as células que são sadias e as que se tornaram malignas. Aliás, o doutor Hannouf aposta que esse seria um dos mecanismos centrais para explicar o que se viu no estudo com pacientes que tiveram câncer de intestino.

“Não podemos nos esquecer que a atividade física também diminui a inflamação e melhora o desempenho do sistema imunológico”, acrescenta André Paternò. Verdade. Com isso, dá uma chance para os linfócitos de defesa flagrarem células que estão se bandeando para a malignidade, destruindo-as antes que formem um tumor.

Tudo isso vale para evitar a volta de um câncer, mas é também uma das medidas mais efetivas para prevenir que ele apareça em quem nunca ficou doente. “De todos os fatores que alguém consegue mudar para tirar essa ameaça de seu caminho, o exercício é o principal, ao lado de não fumar”, acredita André Paternò.

Uma informação repetida em todas as sessões sobre exercício da Asco e salientada pelo médico brasileiro é que você não é obrigado a correr na esteira. Pode escolher a modalidade que mais lhe agrada, incluindo a dança, a natação e tantas outras.

O fundamental para quem já teve um câncer é ter acompanhamento profissional. Afinal, o olhar especializado, garantindo que o esforço não será nem a mais, nem a menos, parece ser decisivo para transformar em coisa do passado o tumor de intestino — e, provavelmente, o de outros órgãos também.

*Nota: a colunista viajou para cobrir o encontro da Asco, em Chicago, a convite da amigo_h (Amigos Einstein da Oncologia e Hematologia), que faz parte das iniciativas de responsabilidade social do Einstein Hospital Israelita.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.

Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Lúcia Helena por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Brasil x Noruega: entenda a rivalidade entre Gabriel Magalhães e Haaland

México passeia sobre Equador e avança às oitavas com 100% e defesa intacta

‘Ele está sedado’, diz irmã de jogador que perdeu esposa e filhos em tremor

Mbappé empata com Messi na briga pela artilharia da Copa; veja o ranking

Exercício físico prova que reduz o risco do câncer de intestino voltar

Mudanças climáticas: como elas podem afetar quem tem um câncer?

Câncer: o sol de inverno também pode colocar sua pele nessa fria

Câncer de pulmão: radônio, uma ameaça que o Brasil não conhece o tamanho

Por que especialistas em câncer estão falando tanto de drogas com GLP-1?

O exame de sangue que diz se você tem um câncer e onde ele está

Sabe aquele nodulozinho no pulmão que dizem ser nada? Cuidado com ele!

Boa notícia: estamos no caminho para tornar o câncer de pâncreas curável

Placenta que não descola: como balões minúsculos evitam hemorragia no parto

SOMP: por que a síndrome dos ovários policísticos precisou mudar de nome?

Por que o SUS ainda prescreve drogas ineficazes contra o câncer de próstata

Créditos da imagem: Adobe Stock

Please follow and like us:
error20
fb-share-icon
Tweet 2.53k
fb-share-icon36554

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *