Cancro do pulmão: a loteria da saúde na Europa e as profundas desigualdades

Cancro do pulmão: a loteria da saúde na Europa e as profundas desigualdades

O cancro do pulmão, a doença oncológica mais prevalente e letal na União Europeia, revela uma realidade preocupante: a probabilidade de adoecer e, crucialmente, de sobreviver, varia drasticamente entre os países e regiões do continente. Esta disparidade expõe as profundas desigualdades nos sistemas de saúde europeus, onde a “sorte” de um diagnóstico precoce e o acesso a tratamentos de ponta podem ser tão decisivos quanto a própria doença.

A história de José Manuel Guedes, um empresário do Porto, ilustra bem esta complexidade. Diagnosticado com uma pequena mancha no pulmão após exames de rotina, sem dores ou sintomas evidentes, a sua reação inicial foi pragmática: “a primeira coisa que eu pensei foi que não me dava jeito nenhum morrer agora”. Fumador de longa data, José encarou o diagnóstico como um problema a ser resolvido rapidamente, uma mentalidade que, para muitos, é um luxo condicionado pelo acesso a cuidados de saúde eficazes.

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O cenário do cancro do pulmão na Europa

O cancro do pulmão é uma ameaça de saúde pública de proporções significativas. Em 2024, dos 2,7 milhões de novos casos de cancro diagnosticados na União Europeia, 20% foram cancros do pulmão em homens e 12% em mulheres, consolidando-o como a doença oncológica com maior incidência no bloco. Em Portugal, no mesmo ano, mais de seis mil novos casos foram detetados, resultando em mais de 5.500 mortes, o que o torna o cancro mais mortal no país.

Contudo, a incidência não é uniforme. Há uma clara prevalência em países do leste e do sul da Europa, em contraste com as nações nórdicas. Esta distribuição geográfica não é aleatória e aponta para uma série de fatores históricos, sociais e económicos que moldam a saúde da população.

Fatores por trás das disparidades na incidência

As diferenças na incidência do cancro do pulmão são multifacetadas, com o tabaco a ser o principal vilão. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre 60% e 70% dos casos estão diretamente ligados ao consumo de tabaco. A médica cardiologista Ana Varges Gomes, líder da comunicação da Rede Europeia de Centros Oncológicos Integrados (EUnetCCC), explica que a maior prevalência em certas regiões reflete “os países onde habitualmente o consumo de tabaco era mais elevado”, em contraste com os hábitos mais reduzidos dos nórdicos.

Além do tabaco, outros fatores de risco contribuem para as desigualdades. O setor da mineração, historicamente relevante no leste da Europa, expõe trabalhadores a substâncias carcinogénicas. A presença de amianto em edifícios é outro problema persistente. Embora exista uma diretiva comunitária para a sua substituição, “há países que começaram agora a substituir os amiantos um bocadinho mais tarde, nomeadamente na zona dos países do leste e alguns países também do sul da Europa, entre os quais Portugal”, aponta Ana Varges Gomes.

Os cigarros eletrónicos representam uma nova frente de preocupação. Apesar de serem comercializados como uma alternativa menos prejudicial, os seus efeitos a longo prazo são ainda desconhecidos, com estudos mais fiáveis esperados apenas para 2040. A restrição e proibição destes produtos avançam a diferentes velocidades na Europa, criando um cenário de incerteza e risco para a saúde pública.

A luta pela sobrevivência e o acesso aos cuidados

As taxas de sobrevivência ao cancro do pulmão também variam significativamente entre os países, especialmente entre os homens. Em 2024, a Polónia registou 4.745 mortes a mais do que o esperado entre doentes masculinos, enquanto a Alemanha observou 4.490 mortes a menos. Estas estatísticas sublinham que a qualidade e o acesso aos cuidados de saúde são determinantes.

José Manuel Guedes teve a “sorte” de um diagnóstico precoce e acesso a tratamento. A sua operação foi realizada numa clínica privada, seguida de quimioterapia no Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto, um exemplo de como a combinação de recursos públicos e privados pode ser crucial. Cinco anos após o diagnóstico, o cancro não reapareceu, mas a vigilância trimestral no IPO é uma constante na sua vida.

Ana Varges Gomes destaca que as diferenças no acesso começam no rastreio, onde a deteção precoce é vital. “Temos, por exemplo, países em que há programas de rastreio do cancro do pulmão já implementados. Temos países que estão a começar agora”, explica. A disparidade estende-se ao acesso a consultas especializadas e exames de diagnóstico avançados, criando um fosso entre quem pode e quem não pode beneficiar dos melhores cuidados disponíveis.

O desafio das políticas de saúde na União Europeia

A União Europeia, ciente destas desigualdades, tem procurado harmonizar as políticas de saúde, como evidenciado pelas diretivas sobre o amianto e a revisão das diretivas sobre o tabaco. No entanto, a implementação destas medidas é um processo complexo e moroso, que esbarra em realidades económicas, sociais e culturais distintas em cada Estado-membro. A luta contra o cancro do pulmão é, portanto, também uma luta por equidade e por um acesso universal a cuidados de saúde de qualidade, independentemente da geografia ou do estatuto socioeconómico.

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