Gregorio Duvivier reflete sobre ano difícil e o sucesso inesperado de sua peça
O ator e humorista Gregorio Duvivier abriu o jogo sobre os bastidores da criação de sua aclamada peça, “Céu da Língua”, um monólogo que estreou em 2024. Em entrevista ao programa Maria Vai com os Outros, do Canal UOL, Duvivier revelou que o espetáculo nasceu de um período de grande incerteza profissional, que ele descreve como um “ano difícil”, marcado por cancelamentos e a sensação de desemprego.
A fase de adversidade, segundo o artista, não apenas moldou a concepção da peça, mas também o impulsionou a explorar caminhos e experiências que, em outras circunstâncias, talvez não tivesse considerado. Essa jornada de reinvenção e busca por novas formas de expressão culminou no sucesso atual de “Céu da Língua”, que tem cativado plateias e recebido elogios da crítica.
A Virada em Meio à Incerteza Profissional
O ano de 2024 foi um divisor de águas na carreira de Gregorio Duvivier. O humorista relatou que enfrentou uma série de cancelamentos de projetos importantes, o que gerou um cenário de instabilidade. “Fui fazer [a peça] muito por causa do desemprego, que é a coisa mais desesperadora que tem no mundo, porque me cancelaram o Greg News, cancelaram a Folha, tudo no mesmo ano. Aquele ano de 2024, pra mim, foi uma doideira. Cancelaram tudo”, desabafou Duvivier, evidenciando a profundidade do impacto em sua trajetória profissional.
A perda de contratos e a interrupção de trabalhos consolidados, como seu programa e sua coluna, o colocaram diante de um dilema comum a muitos artistas: como se reinventar em um mercado volátil? Essa pressão, paradoxalmente, abriu portas para a criatividade e a busca por novas oportunidades, longe da zona de conforto.
Novas Experiências: Reality Show e Circo
Diante do cenário de incerteza, Duvivier tomou decisões inesperadas. Uma delas foi aceitar o convite para participar do “LOL: Se Rir, Já Era!”, um reality show da Amazon Prime que confina comediantes com a regra de não rir. O que parecia uma alternativa motivada pelo desemprego, transformou-se em uma experiência gratificante. “Eu topei muito porque estava em um ano difícil. E foi a coisa mais legal que eu fiz ali. Foi uma delícia. Eu amei, mas também foi muito por causa do desemprego”, confessou o ator.
Além do reality, o humorista buscou refúgio e aprendizado no circo. Ele começou a treinar com frequência, dedicando-se a atividades como tecido e trapézio. Para Duvivier, essa prática não apenas trouxe benefícios físicos, mas também proporcionou um ambiente de convivência e um novo propósito. “Pensei assim: ‘Sou ator desempregado. O que eu tenho que fazer? Eu não sei dar uma cambalhota. Um ator desempregado tem que aprender a dar uma cambalhota. Mas é a melhor coisa do mundo. É melhor do que crossfit’”, brincou, destacando a importância de se manter ativo e em constante aprendizado.
“Céu da Língua”: A Poesia em Cena e o Sucesso Inesperado
O sucesso de “Céu da Língua”, que aborda a poesia de forma acessível e popular, surpreendeu o próprio Gregorio Duvivier. Ele admitiu que não percebeu de imediato a dimensão da repercussão do monólogo. Mesmo com a peça em alta, o ator já pensa em um “plano de saída” para evitar o esgotamento, dada a agenda lotada e programada com meses de antecedência. “O problema é que eu não posso cansar e parar, porque já está programado sempre com muitos meses, um ano quase à frente. Então, eu tenho que parar antes de cansar”, explicou, revelando os desafios da gestão de uma obra de sucesso.
Duvivier defende que a poesia possui uma vocação inerentemente popular, que se perdeu ao longo do tempo com a sua “academicização”. Sua peça é uma aposta na ideia de que a poesia é “pop pra caramba” e que as pessoas, mesmo sem saber, amam essa forma de arte. “A poesia sempre foi uma arte muito popular e ela foi se distanciando, virando uma coisa acadêmica. Mas a peça é também uma aposta no fato de que a poesia é pop pra caramba. As pessoas não sabem, mas elas amam poesia”, afirmou. O maior ganho, para ele, é ver o público saindo do teatro mais propenso a encontrar poesia no cotidiano, tornando-se “mais poetas”.
O Legado de Paulo Gustavo e a Visão de Gregorio Duvivier
A reflexão sobre o sucesso inesperado de “Céu da Língua” levou Gregorio Duvivier a relembrar suas próprias previsões equivocadas sobre o trabalho de outro grande nome do humor brasileiro: Paulo Gustavo. Ele confessou que, inicialmente, desconfiou da ideia de Paulo Gustavo levar a personagem Dona Hermínia para os palcos, acreditando que o formato não funcionaria em uma peça longa. “Eu sempre tive uma paixão por aquele personagem. E, quando ele disse que ia fazer uma peça com o personagem, eu pensei: ‘isso não vai dar certo’. Vai dialogar com quem? Com uma voz em off. A ideia não parecia boa”, relembrou.
Duvivier acompanhou o desenvolvimento de Dona Hermínia desde as apresentações curtas, como no espetáculo “Surto”, onde o número de Paulo Gustavo durava cerca de dez minutos e era considerado “perfeito” para aquele formato. Ele admitiu ter mudado de ideia ao ver a peça pronta, e novamente errou ao duvidar do sucesso da personagem no cinema. Essa anedota sublinha a imprevisibilidade do sucesso artístico e a capacidade de grandes talentos em transcender expectativas, um paralelo interessante com a própria trajetória de Duvivier e o êxito de sua peça.
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