O universo sertanejo, historicamente associado a narrativas heteronormativas e a um ambiente tradicionalista, está passando por uma notável transformação. Nos últimos anos, essa paisagem cultural tem se aberto para a diversidade, dando espaço a novas vozes e perspectivas que redefinem o gênero musical mais popular do Brasil. Quatro grandes estrelas da música sertaneja, em um movimento de coragem e autenticidade, saíram do armário e se assumiram publicamente como parte da comunidade LGBTQIAPN+.
Esses artistas — Reddy, Gabeu, Gali Galó e Alice Marcone — não apenas desafiam as antigas barreiras do meio caipira, mas também impulsionam um movimento cultural significativo conhecido como “Queernejo”. Ao unir a sonoridade tradicional da viola e o estilo caipira a narrativas inclusivas de diversidade de gênero e sexualidade, eles estão reconstruindo a própria estética da música brasileira contemporânea e humanizando trajetórias que, no passado, foram silenciadas por receios de retaliações comerciais.
Queernejo: a nova voz da música sertaneja
O termo Queernejo é a fusão entre o conceito “queer” – que abrange expressões de gênero e sexualidades dissidentes – e o gênero sertanejo. Ele batiza oficialmente uma subcultura de acolhimento na música nacional, impulsionada por artistas que, apesar de nutrirem paixão genuína pelas modas de viola e pelo cotidiano do interior, historicamente não encontravam representatividade nas letras convencionais do gênero.
Com a expansão das redes sociais nas últimas décadas, a distância entre esses criadores e o grande público encurtou, abrindo espaço para trajetórias que marcam época no mercado fonográfico e oferecem uma nova perspectiva sobre o que significa ser sertanejo no século XXI. A visibilidade e o apoio mútuo entre esses artistas têm sido cruciais para a consolidação do movimento.
Reddy: da dupla sertaneja ao estrelato drag e trans
Apontada como uma das principais precursoras do movimento Queernejo, Reddy iniciou sua jornada musical em uma dupla sertaneja tradicional ao lado de seu irmão. A necessidade de expressar sua arte de forma integral a levou à carreira solo, onde se consagrou como a grande vencedora do reality show Queen Stars Brasil. Sua atuação uniu a riqueza instrumental do sertanejo à grandiosidade e à performance vibrante da cultura drag queen.
Após passar por uma transição de gênero e se assumir oficialmente como uma mulher trans, a cantora retirou o sobrenome “Allor” de suas redes sociais e canais oficiais. Essa nova fase de sua vida pessoal e artística foi selada com o lançamento do EP Ao Vivo, Vol. 1, um projeto que mistura sertanejo e forró em faixas de alto astral, celebrando o amadurecimento, a liberdade criativa e seu processo de transição com autenticidade.
Gabeu: o filho de Solimões que rompe barreiras
Criado nos bastidores da música caipira como filho do renomado cantor Solimões (da dupla Rionegro & Solimões), Gabeu buscou inspiração no pioneirismo de Reddy para criar canções que retratassem suas próprias vivências afetivas. Seu álbum de estreia, Agropoc, furou bolhas de preconceito e conquistou uma indicação histórica ao Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de Música Sertaneja, consolidando seu lugar como uma voz importante no cenário.
A trajetória de Gabeu destaca-se também pelo forte apoio familiar. O veterano Solimões declarou publicamente que o afeto e a convivência diária superam barreiras ideológicas, revelando ter percebido com naturalidade a orientação do filho quando ele tinha apenas oito anos de idade. Gabeu define a postura acolhedora do pai como “fora da curva”, um exemplo de aceitação. Após lançar o EP Rock Bravo, Gabeu alcançou novos marcos, levando a sonoridade do Queernejo para rodeios e festivais de grande porte em São Paulo e Minas Gerais, além de atuar como mentor de novos talentos LGBTQIAPN+.
Gali Galó: a representatividade não-binária na MPB sertaneja
Gali Galó traz a representatividade não-binária para o centro do debate sobre a música sertaneja. Ao se identificar fora do binarismo de gênero, Gali cruza o sertanejo com a MPB e o brega nacional, criando uma sonoridade única e inovadora. O reconhecimento da crítica veio com seu disco homônimo, eleito pela Folha de S. Paulo como um dos melhores álbuns do ano de 2023, atestando a qualidade e a relevância de seu trabalho.
Gali Galó lançou recentemente o EP visual “de VOLTa”, um projeto gravado em uma residência que combina música e audiovisual em uma narrativa sobre memória e pertencimento. O trabalho marca a estreia da banda Quarta Pele, formada por artistas transmasculinos, e culminou em uma apresentação especial realizada no Sesc SP, na unidade de Ribeirão Preto, reforçando a visibilidade e a importância da diversidade no cenário artístico.
Alice Marcone: pioneirismo trans na sofrência e dramaturgia
Por fim, Alice Marcone cravou seu nome na história como a primeira cantora e compositora abertamente transexual a despontar na música sertaneja. Suas composições utilizam a estrutura clássica da “sofrência”, do amor e do empoderamento, combinando arranjos de cordas tradicionais a batidas contemporâneas do pop. Em entrevistas, a artista destaca que o objetivo central de seu trabalho é criar representação estética a partir de contextos rurais e urbanos, normalizando as vivências LGBTQIAPN+.
Alice consolida sua forte presença no audiovisual e na cultura nacional por meio de duas frentes: ela trabalhou como atriz protagonista no longa-metragem “Eu Vou Ter Saudades de Você”, além de atuar como roteirista de projetos audiovisuais e mentora de novos roteiristas na instituição Roteiraria, mantendo sua atuação pioneira tanto na música quanto na dramaturgia, ampliando o alcance de sua mensagem e representatividade.
A ascensão desses artistas e do movimento Queernejo demonstra que a música sertaneja está em constante evolução, abraçando a diversidade e se tornando um espelho mais fiel da sociedade brasileira. Para continuar acompanhando as histórias e curiosidades de famosos, além de outras informações relevantes e contextualizadas, siga o Giro da Fofoca. Nosso compromisso é trazer sempre conteúdo de qualidade e variedade para você.
